Só remédio não reduz pressão, mostra estudo
Resultados preliminares do maior estudo epidemiológico da história da cardiologia do Brasil mostram que 93,5% da população hipertensa que está em tratamento com algum anti-hipertensivo não consegue atingir o nível de pressão arterial considerado ideal --abaixo de 140 x 90 mmHg (ou 14 por 9, na linguagem popular).
O principal motivo é atribuído à desinformação de médicos e pacientes. Ao chegarem a uma meta estabelecida, com o uso de medicamento, ambos tendem a negligenciar o controle, o que levaria ao aumento da pressão arterial.
"Não basta só tomar o remédio. É preciso mudar o estilo de vida, como diminuir o sal e praticar exercícios", afirma Raimundo Marques Nascimento Neto, diretor-executivo da Sociedade Brasileira de Cardiologia/Funcor, entidade que está realizando o estudo.
A hipertensão arterial é um dos principais fatores de risco cardiovascular e um dos mais preocupantes porque, em 80% dos casos, não apresenta sintomas. Estima-se que entre 20% e 25% da população brasileira com mais de 20 anos seja hipertensa.
Da população acima de 40 anos, calcula-se que 11% tenham diabetes (4,6 milhões de brasileiros). A pesquisa Corações do Brasil ouviu 2.500 pessoas, em 77 cidades brasileiras. Os dados parciais foram divulgados ontem, Dia Nacional de Prevenção e Combate à Hipertensão.
Segundo Nascimento Neto, o remédio reduz em média em dez milímetros de mercúrio (mmHg) a pressão arterial de um hipertenso. Quando associado o remédio à mudança do estilo de vida, a diminuição vai para 16 mmHg. "O remédio é potencializado com a mudança de estilo de vida", afirma Nascimento Neto.
Muitos pacientes sabem disso, mas confessam que o difícil é mudar, especialmente a dieta alimentar. "Fritura eu até consegui eliminar, o problema é reduzir o sal. Detesto comida sem gosto", afirma a dona-de-casa Joana Maria Agnelli, 58, que toma medicamento para controlar a hipertensão há oito anos.
Ela afirma que, no ano passado, trocou quatro vezes de medicamento porque a pressão não chegava nos "14 por 8" determinados pelo médico. "Neste ano, estou pegando mais leve e tentando caminhar todos os dias", conta.
Para Nascimento Neto, os hipertensos deveriam "levar um puxão de orelha" a cada quatro meses. "É o tempo para eles começarem a relaxar e a pressão voltar a subir", relata.
Na avaliação de Maria Cecília Arruda, da Associação Paulista de Assistência ao Hipertenso, falta informação ao paciente sobre o controle da doença desde o início do tratamento. "Eles não são alertados suficientemente sobre os riscos da doença, a importância da mudança do estilo de vida e os problemas que podem surgir com a falta de controle", diz.
Além disso, ela conta que a distribuição de anti-hipertensivos na rede SUS ainda é descontínua, o que leva muitos pacientes a desistir de perambular pelos postos de saúde à procura do medicamento indicado pelo médico. Na rede pública, há quase 8 milhões de hipertensos cadastrados.
Para Nascimento Neto, o tratamento negligenciado não é um problema só do Brasil. "Na Inglaterra, apenas 7% dos hipertensos têm a pressão controlada", afirma. O fato de a doença não apresentar sintomas em 80% dos casos também seria outro fator do tratamento negligenciado.
É significativo o índice de pessoas que sabem da sua condição de hipertensas, mas não se tratam: 48,1%. Dessas, 60% são homens. O público masculino também é o que menos consegue atingir a meta da pressão arterial ideal. Apenas 35% dos homens hipertensos que tomam medicação estão com os níveis ideais.
O tratamento da hipertensão também não depende da renda familiar. No grupo que recebe mais de dez salários mínimos por mês, o índice é de 49% de adesão. No grupo que recebe entre um e cinco salários, a taxa é 50%.
Fonte: Folha Online